ESPECIAL 8M: Autoconfiança, empreendedorismo, maternidade!

Sabemos que o Dia 8 de Março não é só para flores e parabéns. É mais um apelo para refletir sobre a violência e opressão que vivemos diariamente. Existem situações óbvias de disparidades, mas outras estão lá, silenciosas, em forma de piadas e comentários que passam batido. Quem aí nunca ouviu em um bar: “Essa cerveja é mais forte, não é muito para mulher”!

‘Detalhes’ como estes são repetidos a todo momento, e acabam ditando como devemos ser, o que devemos gostar. Isso limita a diversidade e o potencial que cada mulher pode expressar. Como disse Simone de Beauvoir, “que nada nos limite, que nada nos defina, que nada nos sujeite, que a liberdade seja a nossa própria substância”.

Todo dia é dia de refletir sobre a nossa sociedade patriarcal, se desconstruir para construir com mais justiça. Mas hoje, queremos dar uma recado para você, mulher, que é empreendedora como a gente e que às vezes duvida do que é capaz.

Faz 6 anos que criamos o Baixa. Entre matérias, feiras e festivais conhecemos muitas mulheres maravilhosas. Elas nos conquistaram não só pelo estômago, mas também pelo brilho nos olhos, dando um show de inspiração profissional e pessoal.

E o mais incrível é que todo mulherão guarda dentro de si aquele pedaço de “gente como a gente”. Elas também se cansam, lutam, choram, ficam divididas entre maternidade e trabalho, tem seus dilemas e momentos de tristeza. Mas o que faz a diferença? Fomos bisbilhotar a história delas para saber.

Maysa, Cristina, Tutty, Ana Paula e tantas outras que já nos impactaram. Obrigada! E a tantas outras que queremos conhecer, obrigada, obrigada. Ouvir vocês nos enche de gás para ter a coragem de bancar quem sonhamos ser!

Maysa Rossato, chef e sócia do Madê Cozinha de Herança

Como você descobriu que queria trabalhar com comida?

Sempre gostei de cozinhar, mas nem sabia que isso poderia virar profissão. Em Cornélio não tinha essa cultura de restaurantes, então não sabia muito sobre esse mundo. Quando conheci, resolvi fazer faculdade em Águas de São Pedro e aproveitei muito essa época. Na aula teórica eu não era muito certinha, mas na prática eu mandava bem. Aí tive certeza ainda que era isso que eu queria fazer.

E como foram as primeiras experiências?

Trabalhei dois anos e meio em Campinas, trabalhava de manhã e à noite, às vezes 17 horas por dia. Foi bem difícil, saia metade dos dias rindo, metade dos dias chorando. Cozinha é disciplina e humildade, então enquanto eu não aprendi essas duas coisas foi muito difícil. Depois, quando aprendi a ter isso, eu fui conquistando cargos de chefia, aprendi a gerenciar pessoas, organização, logística e foi aí que aí que me senti preparada pra voltar pra Londrina e ter meu próprio restaurante.

Como foi empreender?

Tivemos vários perrengues desde a obra, mas também tivemos sorte porque a maioria das pessoas que trabalham ou trabalharam conosco são ótimas, é muito saudável o ambiente de trabalho, aqui temos uma união muito legal. Mas é puxado. A única coisa que é sussa é aquele momento que a pessoa come a comida e acha mara! É o único! O resto é tudo muito trabalho. É preciso se dedicar mais que 100%. A gente mata mais que um leão por dia.

Tem alguma dica pra quem tá começando?

Uma dica pra quem tá começando gastronomia é ouvir mais do que falar, trabalhar em cozinhas diferentes com métodos de cocção diferente, pessoas, gastronomia diversa. Não adianta abrir um restaurante só porque sabe cozinhar, sem se adequar à gestão. Fazer uma faculdade de administração é algo bom. Tem que tá ligado nessa parte de custos, impostos, tem que ter um contador muito bom, isso ajuda.

 

Cristina Maulaz, barista e degustadora de café, sócia proprietária do O Armazém Café

De onde surgiu a sua paixão pelo mundo do café?

Sou gaúcha, de Pelotas, e cheguei há 25 anos em Londrina. A primeira coisa que encantou foram as plantações de café que rondavam a cidade. E depois, comecei a beber café bom aqui, porque no Rio Grande do Sul não haviam cafés bons como em Londrina e me encantei novamente. Comecei a estudar sobre, tive grandes mestres e também a sonhar e achei que trabalhar com esta bebida era um nicho muito interessante. Sempre gostei de entrar no terreno sabendo qual era o meu inimigo, então fui estudar muito antes de abrir o Armazém.

O Armazém é uma empresa familiar. Sempre foi assim?

Eu abri O Armazém para poder ter meus filhos sempre perto de mim, eles eram pequenos na época. Foi a maneira de unir o útil ao agradável. Até hoje somos uma empresa familiar e trabalhamos sempre para crescer no quesito de qualidade dos produtos que oferecemos.  A Mariana, minha filha, hoje é minha sócia e chefia a nossa cozinha. O meu filho, Miguel, me ajuda na torrefação. Nós prezamos muito a família e somos unidos, mas claro que eles sabem que estão preparados para lançar voo quando precisarem, pois tem um porto seguro aqui. Entendemos também que a empresa tem que saber funcionar sozinha.

Como foi o início do O Armazém? (Neste março de 2019 a casa completa 15 anos de atividades).

Foi um início tímido, tínhamos muitos produtos de fora, do Rio Grande do Sul, que eram coisas que eu já conhecia. O café (a bebida) foi tomando maior corpo para mim com o tempo, começamos a oferecer mais cursos e conhecer mais sobre as bebidas. Hoje o café é a nossa atividade principal e fico muito feliz, pois somos conhecidos em toda a região. Além de conhecer todos os produtores de quem eu compro, no O Armazém você encontra produtos premiados e sempre novidades. E os diversos profissionais que formamos aqui estão trabalhando e empreendendo, sempre melhorando a qualidade da bebida pelo mundo a fora.

Como foi empreender em uma cidade nova?

Londrina é uma cidade muito acolhedora, mas tivemos as dificuldades burocráticas que todos têm, com impostos e tudo mais. Um dos desafios foi ser pioneiro em trabalhar com o café especial, em uma época que as pessoas não davam tanto valor para isso – acredito que hoje a gente tenha conseguido fazer com que as pessoas valorizem e entendam porque os produtos tem que ter um preço agregado, o trabalho do produtor é muito grande. Além disso, Londrina foi a capital mundial do café, então todo mundo ou achava que entendia, ou realmente entendia sobre a bebida – e estas que entendiam são um privilégio da região, tive excelentes mestres, pessoas que me ajudaram a compreender melhor este mundo. E claro, passamos por dificuldades ao longo dos anos, erramos em algumas escolhas, mas sempre conseguimos nos reerguer.

Tem alguma dica para quem deseja empreender ou já empreende?

Eu acho que a melhor coisa é acreditar no seu sonho, mas não somente em uma coisa utópica. Você tem que colocar o seu sonho no papel, estudar, traçar metas e ter certeza que você vai conseguir realizar tudo, sempre de acordo com os seus preceitos éticos e morais, respeitando o seu tempo de crescimento – cada um no seu ritmo, mas nunca parando de inovar. Sonhe com os pés no chão e lembra-se que nada se dá sem trabalho, foco e inovação. As dificuldades aparecem para a gente crescer.

Tutty Fujarra, sócia proprietária do Comidaria Green

Qual a sua história com a gastronomia?

Gastronomia e o comércio sempre estiveram presentes na minha vida. Sou descendente de italianos (por parte de pai) e japoneses (por parte de mãe) e minha mãe conta que desde os pequena eu já “trabalhava” no bar do meu avô, ajudando a fazer bolinho de carne, massa de pastel, sorvete. Além disso, meu pai foi açougueiro a vida toda. Cresci neste meio, mas demorei para perceber, pois, na época, os meus pais gostariam que fossemos “doutores”. Cursei educação física, depois fiz faculdade de direito, advoguei e não posso me arrepender, foi uma época boa, mas sempre parecia que faltava alguma coisa.    

Como foi a decisão de mudar de profissão?

Um amigo meu fechou um restaurante e comprei os móveis dele, deixei guardado por muitos anos, sempre tive a ideia de abrir um restaurante mais tranquilo, morar na praia… As coisas mudaram quando larguei a advocacia para abrir um restaurante do qual hoje não faço mais parte. A ideia do Comidaria Green foi surgindo quando eu e minha filha, Fernanda, achamos o local onde ele é hoje. E daí o trabalho começou, de pesquisar, estudar, entender o público e também de dar nossa cara e cor para o local. A intenção é que as pessoas se sintam verdadeiramente em casa aqui e acho que consegui isso. Os clientes viraram uma grande família e isso me realiza muito.

Quando vamos ao restaurante, tudo parece perfeito. Quais são as lutas dos bastidores?

Todo dia é uma luta. Não dá para ter preguiça, tem que estar sempre pronta para ouvir, escutar o seu cliente. Não pense que você vai abrir, contratar pessoas e seu trabalho irá acabar. O treinamento da equipe tem que ser diário, precisamos ter harmonia e ligação. Tudo na culinária é uma alquimia e eu gosto desse desafio. Na cozinha não podemos ter desperdício, então o trabalho começa bem antes, na gestão: fazer boas compras, oferecer bons produtos, estar a par de tudo o que tem dentro do seu estabelecimento. E temos que inovar sempre, pois como temos um restaurante no qual as pessoas comem diariamente, você precisa atender cada cliente de uma maneira única. Sou uma leonina, sou fogo e não entro para perder. Sou guerreira, cobro e falo que o almoço é o meu horário de guerra, ali sou uma leoa mesmo, quero que meus clientes sejam bem servidos e satisfeitos.

Tem alguma dica para quem deseja empreender e trabalhar com gastronomia?

Gastronomia não é glamour. Se quiser trabalhar com isso, tente passar em uma cozinha para ver qual é o ritmo lá dentro. Entenda como as coisas funcionam e nunca desista dos seus sonhos. Não se importe com as barreiras que irá encontrar, acredite em você, no seu potencial e nunca tenha medo da crítica, ela é seu crescimento, faz você amadurecer e constrói o seu trabalho. Sempre pense em inovação, tudo que sempre sonhamos será realizado. Sem medo.

 

Ana Paula Lopes, chef e sócia da Menu Escola de Gastronomia

Como começou essa ideia de trabalhar com gastronomia?

A gastronomia na minha vida entrou pela família, meus avós tiveram o primeiro buffet em Londrina, com eles eu aprendi o amor por servir as pessoas. Essa vivência familiar foi muito importante porque eu vi que eu não precisava ter vergonha nenhuma do rumo que eu tinha escolhido. Apesar de estar mudando, esse é um mercado bem preconceituoso. Lembro que uma vez encontrei um amigo do colégio que disse, ‘Ana, você virou cozinheira… E eu virei advogado’, como se eu não tivesse dado certo na vida. Logo eu, que tinha acabado de voltar da Europa com uma bagagem cheia de projetos legais. Mas eu nem falei nada. Só disse: mas eu sou tão feliz com o que faço. Isso que importa.

Quando fui fazer faculdade não tinha curso de gastronomia em Londrina, então fiz Turismo e Hotelaria. Já fui tia de resort, trabalhei em agência, fiz estágios em cozinha, que era onde eu realmente me sentia envolvida. Aí fui para Brasília chefiar uma cozinha, fiz uma pós-gradução em gestão e passei em um processo seletivo da embaixada da Itália para fazer uma pós em Chef de Cozinha Internacional. Foram 6 anos na Europa, estudando, fuçando, comendo e trabalhando muito.

Rolou alguma dificuldade grande por ser mulher em um ambiente majoritariamente masculino?

Em Londres, tive a Allegra como chefe, uma mulher incrível, que foi como uma mãe na cozinha. Ela é uma mulher irreverente, cheia de segurança e isso me inspirou muito. Na Espanha trabalhei com 32 homens na cozinha do Melia. Eles me olhavam dizendo, o que essa menininha tá fazendo aqui? Também tinha o desafio do idioma, em dialeto, mas foi um baita aprendizado. Fui entendendo que mostrando trabalho você ganha confiança das pessoas. Se fosse pra limpar banheiro, atender cliente, eu aprendi a dominar todas as funções de um restaurante. E uma coisa que eu sempre coloquei na minha vida é prestar um serviço e oferecer pras pessoas o que eu gostaria de receber.

De volta ao Brasil, como foi empreender?

Quando a gente falava que ia montar a Menu, as pessoas chamavam a gente de louco de fazer isso em Londrina. Mas, a gente sempre teve certeza que daria certo, porque acreditávamos no nosso trabalho, e claro, fizemos muito planejamento, nos aliamos a pessoas fortes. Se não sabemos de marketing, vamos atrás de alguém. Sem falar da resiliência e empatia, eu toquei a obra da Menu sozinha, quantas vezes eu olhava e dava vontade de chorar. Mas, com honestidade, clareza, sem passar por cima de ninguém, sendo justo com todo mundo, o resultado vem. Teve muito perrengue, mas acho que diferença é como a gente encara.

Como é se dividir entre o lado criativo e analítico em um negócio?

Hoje sou muito crítica e rigorosa na menu, baseada em todas as minhas experiências. A grande premissa sempre foi gerar encantamento nas pessoas. Como empreendedora tem o lado burocrático, que é preciso se preparar. A gestão é fundamental, as finanças precisam ser saudáveis para que na ponta o cliente sinta que tudo funciona. Hoje, 80% dos negócios em alimentos quebram porque não pensam na gestão. Esse planejamento precisa ser feito sempre. Além de ter feito a pós em gestão de negócios em turismo e gastronomia, adoro uma planilha e aprendi muito com meu pai.

Hoje a Menu tem se tornado referência. O que você acha que esse negócio tem de diferente, de não ser apenas um curso de gastronomia?

Hoje a gente vive num mundo muito cruel de desamor e desrespeito, de pensar individual. Acho que o mundo tá precisando de cuidado, então quando você consegue envolver seu cliente nesse ambiente de encantamento é muito melhor. Quando seu negócio dá certo e ainda faz bem para as pessoas, o gás que vc tem pra trabalhar é muito maior.

E sempre temos essa meta: que experiência nova eu posso trazer? Como eu gostaria que as pessoas se sentissem aqui? A gente não para, mesmo hoje em dia, estamos sempre pensando que surpresa vamos trazer pras pessoas, como elas vão encontrar a gente. Um dos segredos é não se acomodar. Não é porque seu negócio tá indo bem que você não vai inovar, tem que trazer novidade, gerar encantamento.

E a fase da maternidade, gerou muito conflito com a vida profissional?

O desafio da maternidade, para mim, foi que ela veio junto com o profissional. Sempre fui aventureira, mas ao mesmo tempo eu queria ter minha família, filhos, voltar pra Londrina. Quando fui chamada para ser coordenadora de um curso de gastronomia, minha filha tinha 6 dias de vida.

Para empreender foi ainda mais difícil, pois eu precisava estar inteira aqui para fazer essa empresa dar certo. Tive a presença forte do meu marido, mas ainda assim foi um sacrifício. Tive de renunciar à algumas coisas, como vida social, família, casamento, eu tinha vontade de dormir de baixo da minha mesa, viver a Menu. E eu me ceguei um pouco, sei que não é saudável e hoje consigo ver. Mas também investia em tempos de qualidade, conversava muito com a Júlia, que hoje vem junto comigo cozinhar nas colônias de férias, tá sempre aqui.

Mesmo assim, eu tinha uma rotina puxada. Fiquei doente, tive pedra no rim, e não parava de trabalhar. Foi quando engravidei novamente, sem planejar. E aí a Martina veio para mostrar mesmo que era hora de equilibrar minha vida. Investi na amamentação, trabalhei de casa, aquilo era sagrado. Tenho uma relação linda com as meninas, elas são minhas companheirinhas, conversamos muito, mas é um conflito sim. Muitas vezes estou aqui querendo estar com elas, estou com elas querendo estar aqui.  

E me questionei várias vezes se tava fazendo certo, mas sempre fui muito espiritual, pedia discernimento. A maternidade na vida da mulher que está no mercado de trabalho é desafiante, mas pra mim é importante trabalhar, me sentir útil. Já chorei, já achei que não fosse dar conta, mas não existe realização sem sacrifício, sucesso sem renúncia, nem vida perfeita. Acredito que muitas pessoas me julgaram, mas eu sempre tive autoconfiança de saber que eu sei o que é melhor pra minha vida. Ninguém vive você, nem calça seus sapatos, então eu soube ouvir, mas também filtrar. Pra mim é importante sempre ter otimismo, alto astral pra dar conta e assim fazer as coisas fluírem melhor.

 

Atenção: as informações, promoções e preços descritos referem-se a data da publicação e estão sujeitos a alterações sem aviso prévio.

Publicado por